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Entrevistas - 13.07.2018

Após mais de uma década com a prancha às costas, de muitos campeonatos, levando a bandeira portuguesa bem longe, o único português a qualificar-se na elite do circuito mundial World Championship Tour (WCT) retirou-se do surf internacional. Foi Tiago Pires quem abriu o caminho do surf mundial a outros portugueses, como Vasco Ribeiro, Frederico Morais ou Nicolau von Rupp, que estão a competir para darem a Portugal outro surfista no WCT.

Depois de ter lançado um documentário que conta a sua história, Saca, como é mais conhecido no meio, decidiu recentemente criar a sua própria agência de gestão de talentos neste desporto.

 

O que o motivou a abraçar esta modalidade?

O que me motivou a começar foi o facto de estar em contacto com o mar. Sempre adorei praticar desportos em geral, mas assim que o fiz num contacto tão próximo com a natureza fiquei completamente viciado.

 

O surf não é tão fácil como pode parecer… é verdade?

Não é de todo fácil, mas penso que existem vários desportos que também não o são. São necessárias muitas horas na água e muita dedicação para se conseguir evoluir, mas é claro que estou a falar em chegar a um nível muito elevado. Se quisermos somente brincar na água e deslizar nas ondas, o esforço já é muito menor.

 

O surf é uma prática desportiva que é benéfica para o corpo e para a mente. Em que medida?

Penso que quem gosta e quem pratica surf sente-o desde o dia primeiro em que entra na água. Quando estamos no mar focamos toda a nossa atenção para o facto de estarmos num universo bem diferente, onde o movimento é constante e as variáveis são muitas. Isso obriga-nos a uma concentração elevada e a estarmos com os nossos sentidos bem ativados. O surf passa a ser um momento de escape onde só nos focamos no mar e nas ondas e esquecemos tudo o resto à nossa volta. O esforço físico, esse, é mais fácil de perceber, pois desde carregar a prancha aos longos minutos que passamos a remar para nos posicionarmos numa onda, o exercício físico é uma constante.

 

Com a evolução na modalidade, o que sentiu mudar na sua forma e condição física?

Senti que passei a ter uma grande resistência aeróbica, ou seja, passei a ficar habituado a remar durante muitas horas por dia, o que não deixa de ser uma coisa rara comparativamente a outros desportos, e também a ter uma caixa torácica maior, o que nos permite ficar debaixo de água mais tempo do que é habitual. Os ombros acabam por alargar e as pernas ganham muita musculatura devido ao tempo que estamos em contração em cima da prancha.

 

Tem alguns cuidados especiais com a alimentação?

Neste momento já começo a ter mais liberdade na minha rotina alimentar, mas durante quase 20 anos tive muita atenção com a alimentação. Acredito que é na alimentação que vamos buscar grande parte da força que tanto precisamos quando estamos a treinar ou a competir. A dieta e o descanso são os grandes responsáveis pelo nosso bem-estar enquanto atletas.

 

Ao início, pode ser um desporto que pode requerer alguma persistência até que seja possível tirar-se algum proveito. Foi assim consigo?

Exatamente. Eu comecei cedo e penso que as crianças acabam por ter mais facilidade em qualquer desporto que iniciem, mas acho que é uma atividade que está aberta a todos e a força de vontade é que vai comandar e ditar o nosso futuro.

 

Diz-se que quem faz surf, ao entrar numa fase em que já se consegue divertir, dificilmente consegue deixar de praticar. Diverte-se sempre que o pratica?

Muito. Surfar dá uma sensação incrível de liberdade e de velocidade que, quando nos entra no sangue, dificilmente é expelida!

 

Sendo um dos desportos mais desejados por parte dos amantes de mar e de praia, que conselhos dá a quem se queira iniciar?

Aconselho a que procurem uma boa escola e experimentem umas aulas de surf antes de embarcarem numa viagem sozinhos. Hoje em dia um instrutor pode facilitar meses e meses de aprendizagem. Para não falar do que se poupa em investimento.

 

O que o levou a desenvolver um documentário?

O facto de ter uma história completamente diferente dos meus colegas competidores. Noventa e nove por cento deles são oriundos de países onde o surf é um desporto conceituado e com muita história e percurso profissional. Ora, eu em Portugal fui o primeiro a aventurar-me a fazer o circuito mundial na íntegra, bem como a primeira pessoa com o objetivo definido de querer estar entre os melhores. Durante o meu percurso, muitos me chamaram de louco.

 

Sabemos que tem uma Escola de Surf na Ericeira e que acaba de lançar a ReAct Sports Management. Vê-se a trabalhar neste desporto até quando?

Eu adoro a natureza, o mar e a praia, por isso não me imagino a fazer coisas que não estejam ligadas a estes elementos. A escola surgiu em 2011 e é um projeto muito interessante que partiu da ideia de formar campeões e de lhes poder passar a minha experiência enquanto profissional. Tem tido um percurso muito positivo e acredito muito que o nosso posicionamento tenha vindo a preencher de certa forma, uma lacuna nos dias de hoje, em que o surf se está a massificar. Não queremos aulas com grandes grupos, mas sim proporcionar uma experiência fidedigna aos nossos clientes, e que todos eles voltem para casa com um sorriso na cara e muita vontade de estar dentro de água. Já a ReAct Sports Management é um projeto um pouco diferente, somente voltado para a parte profissional do nosso desporto. Comecei por trabalhar com o Vasco Ribeiro em quem deposito muita expectativa, pois o seu talento é assustadoramente grande! Para além do Vasco, comecei também agora a trabalhar com a Teresa Bonvalot, que é uma excelente jovem surfista com um potencial enorme e com um sonho muito parecido com o que era o meu: subir ao mais alto nível e fazer o que nunca foi feito.

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