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Entrevistas - 22.04.2019

Ricardo Pereira diz-se nos dois sotaques da mesma língua. O português mais brasileiro e o brasileiro mais português deste novo século. O multifacetado artista – ator, apresentador e modelo – recorda o passado e desvenda o futuro nesta entrevista de carreira. Sem nunca abdicar do seu inconfundível sorriso.

 

Deu os seus primeiros passos no Teatro D. Maria II, em A Real Caçada ao Sol, de Peter Shaffer, em 2001, e até hoje nunca deixou de pisar os palcos. O teatro continua a ser uma arte imprescindível para a carreira e o crescimento do ator?

O teatro é a essência do ator. A base que permite um contacto mais direto e imediato com o público. É também um recurso com uma linguagem muito própria, que permite ter o corpo, na sua totalidade, em representação e observado in loco. É uma disciplina que prezo e respeito muito e onde me encontro e exploro novos caminhos. Além de ser um espectador assíduo de teatro, adoro realmente estar em cima do palco. Portanto, é uma arte que me vai acompanhar para toda a vida.

 

Chega à televisão pouco depois, alcançando reconhecimento a nível nacional com projetos como O Bairro da Fonte e Saber Amar. Esse momento foi decisivo na sua carreira?

De facto, a televisão apareceu logo de seguida. Foi um privilégio estrear-me profissionalmente num teatro da dimensão do D. Maria II e a televisão apareceu naturalmente com o projeto O Bairro da Fonte, para a SIC, e as produções Os Maiores de 20 e A Senhora das Águas, ambos para a RTP. Depois, deu-se a minha mudança para a TVI, onde integrei o elenco de Saber Amar. A partir daí, participei em todas as produções da estação. Na altura, estes projetos alcançaram um público muito vasto e tornaram-se num grande sucesso. Chegar ao pequeno ecrã e ter sempre oportunidades de trabalho foi, na minha opinião, o que me permitiu evoluir tão rapidamente. Foi uma fase fantástica, onde privei e aprendi com grandes talentos.

 

O seu crescimento e estatuto confirmam-se em 2004, quando parte para o Brasil e torna-se no primeiro protagonista estrangeiro de uma telenovela da rede Globo, em Como uma Onda. Como surgiu essa oportunidade? O que sentiu ao ver confirmado esse desafio?

Fui escolhido através de um casting para encontrar o primeiro protagonista estrangeiro em telenovelas brasileiras. Ter tido esta oportunidade foi incrível e, ao mesmo tempo, uma enorme responsabilidade e um grande desafio. Estrear-me na Globo, assumindo, desde logo, um papel principal, deu-me, obviamente, uma enorme dimensão como ator e como artista. Trabalhar na Globo é chegar, no mínimo, a 200 milhões de pessoas, e a 150 países. A partir daí, o meu universo alargou e comecei a trabalhar no Brasil com muita assiduidade. Só tive noção do momento quando cheguei efetivamente ao Brasil e vi a dimensão da empresa para onde ia trabalhar. Acho que a minha dedicação, vontade e curiosidade em aprender e, sobretudo, a minha entrega total fizeram com que esse desafio fosse tão bem-sucedido. Foi uma das experiências mais enriquecedoras e mais memoráveis da minha vida. Desde então, a minha carreira desenrolou-se entre Portugal e o Brasil e alargou-se mesmo a outros países. Já fiz cinema francês, espanhol, holandês e mexicano. Tenho trabalhado um pouco por todo o mundo e penso que será assim, cada vez mais.

 

O seu tempo divide-se, sobretudo, entre Portugal e o Brasil. Sente que contribuiu para desmistificar algumas opiniões que existiam no Brasil em relação a Portugal e ao povo português? 

Julgo que sim. Sou um artista do mundo, sendo que a minha base é, atualmente, no Brasil, onde passo a maior parte do meu tempo. Obviamente, que ter uma carreira consolidada no Brasil contribui para transmitir aquilo que somos verdadeiramente. Portugal está aberto para o mundo, contém muitas culturas que se misturam e ensinamentos que advêm desse contacto, o que nos torna diferentes e menos fechados do que éramos no passado. Os portugueses que hoje estão espalhados pelo mundo dão-nos uma dimensão diferente e revelam um país moderno. Pessoalmente, acho que tive um papel de embaixador de Portugal e das "nossas gentes" no Brasil. Faço-o sempre com muita vontade e, acima de tudo, com muito orgulho.

 

Ao trabalhar nos Estúdios da Globo, o maior núcleo de produção televisiva do mundo, tendo a oportunidade de contracenar com nomes como António Fagundes ou Glória Pires, entre outros, sentiu aumentar a sua responsabilidade enquanto ator?

Claro que sim. Para mim, é uma grande alegria ter tido a oportunidade de trabalhar com figuras que, antigamente, só conhecia através da TV, como são os casos de António Fagundes, Glória Pires, Laura Cardoso ou Dennis Carvalho e até mesmo outros nomes internacionais como Asia Argento, Gérard Depardieu ou Dani Rovira. Todos eles têm uma história para contar e muito para me ensinar. Sempre me senti muito apoiado, acarinhado e incentivado pela classe artística brasileira e isso deixa-me muito feliz. O acolhimento foi fantástico, o que se confirma pelos convites que tenho recebido para participar em filmes e peças de teatro. Tem sido uma experiência fantástica e alucinante.

 

Nos vários projetos cinematográficos em que participou teve a oportunidade de ser dirigido por nomes como António-Pedro Vasconcelos, José Fonseca e Costa, Leonel Vieira e pelo já falecido e conceituado realizador chileno Raul Ruiz. Fazer cinema continua a integrar os seus objetivos?

Como ator, tenho de trabalhar diversas linguagens e adoro fazê-lo. O cinema é das coisas mais bonitas que podemos fazer e ver e tenho tido o privilégio de trabalhar com muitos realizadores com um percurso notável. Sinto-me um privilegiado por, aos 39 anos, ter participado em quase 30 filmes, o que é incomum e nasce da minha vontade de trabalhar com diferentes criadores. Recentemente terminei a minha participação em três filmes brasileiros, um dos quais rodado nos Estados Unidos da América. No passado mês de novembro, estreou no festival de Tallinn, na Estónia, o filme Golpe de Sol, de Vicente Alves do Ó, no qual participei e tenho já previstos dois projetos de cinema para 2019. O cinema preenche-me muito e também continuará a fazer parte da minha vida.

 

A sua versatilidade é fácil de confirmar. Para além da representação, o Ricardo Pereira é também apresentador de programas televisivos, na SIC e na Globo. É um projeto para manter?

A apresentação faz parte da minha vida e da minha carreira, e ocupa um lugar muito importante no meu dia a dia. Em Portugal, na SIC, continuo a apresentar o programa E-Especial e no Brasil, na Globo, tenho trabalhado no programa Sem Cortes, que vai a caminho da segunda temporada. A apresentação é um trabalho que me deixa muito feliz. O contacto direto com os entrevistados, e mesmo com o público, é muito maior na apresentação, o que a torna muito interessante. É uma área que faz parte dos meus planos e este ano vão chegar algumas surpresas.

 

Em 2014, recebeu o título de Cidadão Honorário da cidade do Rio de Janeiro e, em 2017, foi distinguido com o título de Oficial da Ordem do Mérito, pelo Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa. Sente-se um exemplo daquilo que o seu país tem de melhor?

Tenho tido o privilégio de desempenhar a minha profissão em vários lugares, recebido convites um pouco por todo o mundo, e isso deixa-me muito contente. Estes reconhecimentos em particular, que se devem inteiramente à minha carreira, deixam-me honrado e emocionado. Sinto uma grande responsabilidade de representar e promover Portugal pelo mundo e isso, para mim, é fundamental. A minha história foi construída com muita dedicação, persistência e humildade, em tudo idêntica, aliás, ao exemplo de muitos portugueses que conheço. Orgulho-me do meu percurso e, principalmente, da história do meu país e das suas pessoas. Tento absorver e seguir esses bons exemplos para crescer e melhorar e continuar a ser reconhecido de uma forma positiva pelo público e pela crítica.

 

O Ricardo Pereira não renuncia ao seu sorriso, que é a sua imagem de marca. Para além do seu percurso profissional, sempre destacou a importância da sua família, da sua mulher, Francisca Pinto Ribeiro, e dos seus três filhos, para que a sua felicidade seja completa. A família é a base de todo o seu sucesso?

Sem dúvida! A família é a base de tudo e sem a minha família as coisas não fariam sentido. Sou um homem de família, ligado a valores transmitidos pelos meus pais e que hoje partilho com a minha mulher. Temos feito esforços no sentido de sermos pais presentes, atentos e muito dedicados. Cuidar da família é o que nos alimenta, o que nos dá tudo para, depois, partirmos e sermos bem-sucedidos nas nossas profissões. A relação que tenho com os meus pais, a confiança e o carinho, sempre foram a base de tudo. E é assim com os meus filhos e a minha mulher. A família é o meu alicerce e o que me preocupa em primeiro lugar.

 

Tem sido regularmente solicitado para ser o rosto de várias marcas e produtos. Recentemente, tornou-se um dos embaixadores da Omega, fabricante suíça de relógios de luxo, numa lista que inclui nomes como Cindy Crawford, Nicole Kidman ou George Clooney, entre outros. Agrada-lhe integrar projetos ligados à moda e ao lifestyle?

Fico extremamente feliz porque surge do reconhecimento da minha carreira. O facto de ter sido convidado pela Omega, juntando-me a nomes tão conceituados, enche-me de orgulho. Ao longo dos anos, tenho trabalhado com muitas marcas, um pouco por todo o mundo, e, com algumas delas, tenho já uma sólida e longa relação de confiança. A Omega dá-me projeção internacional e isso é muito importante. Aliás, a moda e o lifestyle estão sempre presentes na minha vida. O meu percurso começou, exatamente, na moda e cheguei a desfilar em eventos importantes, como a Moda Lisboa e o Portugal Fashion. Este ano, também reserva novidades neste setor. Por exemplo, eu e a minha mulher temos uma parceria com a Decenio e seremos, daqui para a frente, a imagem desta excelente marca portuguesa. Trabalhar em moda continua a agradar-me, pois tenho a oportunidade de fazer algo diferente, como, por exemplo, aconteceu nesta sessão fotográfica proporcionada pela F Luxury. Foi uma produção inspirada em grandes cantores, “estrelas” com um estilo muito próprio, num cenário de décadas passadas, e onde me diverti bastante a participar.

 

A sua exposição pública obriga-o a cuidados redobrados com a imagem. Procura estar atento às novas tendências? Gosta de se manter atualizado?

Sou muito curioso e continuo a estar atento ao que se faz, aos criadores nacionais e internacionais, ao tipo de tecidos, cores e padrões do momento. Descubro muito sobre as mais recentes novidades na F Luxury. É através das páginas da revista que, muitas vezes, tenho acesso e que acompanho as tendências mais atuais.

 

Apesar de muito jovem, já alcançou grandes feitos ao longo da sua carreira. Tem algum objetivo definido que ainda espera ver alcançado? Quais são as metas a que se propõe para o futuro próximo?

Os nossos sonhos e objetivos são os condutores da nossa energia e o combustível necessário que nos leva a alcançá-los. Acredito que os desafios que tenho superado surgem devido ao meu elevado grau de exigência. Um dos meus grandes objetivos é chegar aos Estados Unidos da América e trabalhar nesse mercado. No passado, cheguei a ter convites que me permitiam torná-lo realidade. No entanto, mais que cumprir um trabalho, seria importante, neste momento, uma mudança que me permitisse fazer uma reciclagem, estudar com bons professores, para, depois, começar a agarrar as oportunidades. Desejo ainda trabalhar noutros mercados, como o hispânico, que me seduz bastante e, é claro, apostar na minha permanência no Brasil, consolidando a minha posição como ator e apresentador. Portanto, tenho ainda muitos sonhos para concretizar a nível profissional. Na minha vida pessoal, espero manter esta tranquilidade, com muita saúde e alegria, sempre junto da minha família, dos meus filhos e da minha mulher.

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