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Entrevistas - 09.08.2019

Patrícia Mamona é hoje o símbolo maior do desporto feminino, em Portugal. De reconhecida (e elogiada) beleza, a atleta conversou com a F Luxury sobre a sua vida e carreira, desde as suas origens até ao topo do atletismo mundial – numa constante busca pelo ouro.

 

A Patrícia Mamona nasceu em Portugal e é filha de pais angolanos. Hoje, é respeitada e admirada nos dois países, como símbolo de beleza e de sucesso. Representar esta “ponte” entre estes dois universos é algo importante para si? Mantém a ligação às suas origens?

É muito importante e especial para mim. Cresci com as duas culturas sempre bastante presentes, pois, embora tenha nascido e crescido em Portugal, quando regressava a casa, vinda da escola ou dos treinos, Angola e África faziam-se sempre sentir, através dos hábitos e costumes dos meus pais. Quando começamos a refletir sobre as razões da minha genética e do meu talento para o desporto, é impossível ignorar as minhas raízes africanas; claro que os estudos, a técnica e o trabalho, desenvolvidos em Portugal, contribuíram decisivamente para explorar e potenciar essas qualidades. Mas tenho bem presente que quando bato o recorde de Portugal, bato, simultaneamente, o recorde nacional de Angola – e embora nos papéis seja portuguesa, na verdade, quando era mais nova, antes de obter essa nacionalidade, já tinha batido o recorde nacional. Por isso, assumo sempre que esse era também o recorde angolano. Infelizmente, as regras só nos permitem representar um país: e foi Portugal que me deu todo o apoio.

 

Reside em Portugal e na Europa, mas estreitar essa ligação com Angola, no futuro, seria algo que gostaria de fazer?

Angola é um país com muito talento, e que pode e deve ser explorado. Aliás, um projeto que gostaria muito de realizar, quando terminasse a minha carreira desportiva, seria ir para Angola, conhecer o país dos meus pais – e que também espero vir a chamar de meu – e conseguir desenvolver alguns desses talentos, dando-lhes a oportunidade de atingirem os palcos mundiais e, quem sabe, até olímpicos. Seria um grande orgulho para mim e até uma forma de manter a minha ligação ao país e a toda a minha família.

 

O desporto e, em particular, o atletismo surgiram muito cedo na sua vida. Quando é que se apercebeu que tinha condições para abraçar uma carreira como atleta profissional e a tempo inteiro?

O desporto surgiu muito cedo na minha vida, mas, no início, apenas como uma brincadeira. Sempre fui uma rapariga muito ativa, que gostava de praticar desporto e de competir. Na altura, já tinha algumas qualidades e já era, inclusivamente, melhor que os rapazes que corriam comigo. Depois comecei a praticar atletismo, já com regularidade, a partir dos nove anos: fiz corta-mato, pista e, mais tarde, após ter cumprido uma boa formação, apercebi-me que poderia representar Portugal num patamar elevado e a nível internacional. A partir desse momento, decidi assumir uma carreira profissional e a tempo inteiro. Na verdade, até tomei essa decisão um bocadinho tarde, em comparação com outros colegas, pois só em 2012, já com 21 ou 22 anos, e depois de ter conseguido alcançar os mínimos para os Jogos Olímpicos, é que decidi dedicar-me a cem por cento ao atletismo. Percebi que, se o fizesse, poderia alcançar mais coisas e ainda chegar mais longe.

 

Partiu para os Estados Unidos da América ainda muito jovem, onde teve a oportunidade de estudar e treinar. Como foi essa mudança? Foi difícil sair de Portugal, para longe da sua família e amigos?

Tinha apenas 18 anos. Na altura, já estava a demonstrar algum talento, sobretudo, graças às prestações nos mundiais de juvenis e juniores. Houve pessoas que se aperceberam desse talento e do meu potencial, tanto para o triplo-salto, como também para outras provas, e, nessa altura, ofereceram-me a oportunidade de ir para os Estados Unidos da América, onde pude estudar e, ao mesmo tempo, representar a universidade [de Clemson, na Carolina do Sul] em competições. No início custou-me, obviamente, um bocadinho. Fui para um país distante, quando ainda nem sequer tinha a perceção do que era viver sozinha. Essa parte foi o que mais me custou. Nos primeiros tempos, a língua foi um obstáculo, mas, rapidamente, aprendi a falar inglês e fiz novos amigos, o que me ajudou muito à adaptação. Também consegui manter o contacto diário com a minha família e amigos, em Portugal, e, por isso, foi relativamente fácil superar esta mudança.

 

A forma como sempre conseguiu conciliar, ao longo da sua carreira, o seu percurso académico e desportivo, tem sido um extraordinário exemplo. Como tem conseguido fazer a gestão destas duas realidades?

Tenho conseguido gerir a minha vida académica e desportiva usando de muita disciplina. Consegui perceber como conciliar os vários compromissos, nestas duas áreas. Por vezes, foi necessário fazer adaptações e cedências: por exemplo, ao invés de concluir cinco cadeiras do curso, num ano letivo, tal como estava habituada, passei a fazer apenas três. Os meus professores e colegas também rapidamente se aperceberam que eu já era uma atleta de elite e, portanto, foram-me ajudando e apoiando. Ao nível do treino, o meu treinador também era bastante compreensivo e, por vezes, caso tivesse um exame para realizar, reagendava ou repensava a sessão nesse dia, através de um treino mais leve, permitindo, desta forma, que nenhuma das duas vertentes da minha vida saísse prejudicada.

 

É, portanto, algo que considera fundamental, não só para o seu futuro, mas também para o seu equilíbrio, no presente…

Quando regressei a Portugal, estive um ano apenas a treinar, tendo em vista os Jogos Olímpicos. Focada única e exclusivamente no atletismo e, na verdade, senti, nessa altura, que me faltava algo de diferente para fazer. Acho que a vida académica continua a ser uma parte fundamental da minha vida, que me permite desanuviar, para que não esteja apenas e só focada no atletismo, de uma forma demasiadamente exaustiva. É bom pensar noutras coisas, para além do treino.

 

Alcançou o 6.º lugar nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. Já estará, certamente, a pensar em Tóquio 2020. Podemos apontar, neste momento, alguns dos seus objetivos para esta competição?

Depois dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, o objetivo principal é estar presente na edição de 2020. Primeiro, existe a meta da qualificação, que espero conseguir alcançar muito em breve. Nos Jogos de Tóquio, os objetivos passam por conseguir um resultado melhor que o alcançado no Rio de Janeiro. Portanto, quero melhorar o 6.º lugar e também bater o meu recorde nacional [14,65, batido nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016]. Estou convicta que essa competição será importante para aumentar o recorde e confiante num bom resultado.

 

Uma das questões atualmente mais discutidas e comentadas no mundo do desporto, visa a diferença de visibilidade e de tratamento entre homens e mulheres. A Patrícia representa a excelência no desporto feminino. Ainda assim, sente, de alguma forma, essa diferença de tratamento?

Se calhar senti mais quando era mais nova. Quando comecei a treinar, cruzei-me com algumas pessoas que achavam que o triplo-salto era uma disciplina muito dura e que, provavelmente, eu não seria bem-sucedida. Mas isso tem muito mais a ver com a história da própria disciplina, pois, no início, o triplo-salto era apenas feito por homens, devido a um estereótipo que afirmava que as mulheres não conseguiam cumprir determinadas ações, mais exigentes para o coro. Mas nos dias de hoje, sinceramente, já não sinto tanto essa diferença. Ao contrário dos desportos coletivos, como, por exemplo, no futebol – onde as mulheres não têm o mesmo reconhecimento e tratamento dos homens –, não sinto esse problema no mundo do atletismo.  Estamos numa era em que as mulheres podem fazer tudo o que desejam e isso é o mais importante. Em vez de nos agarrarmos a estereótipos ou àquilo que os outros pensam e dizem, devemos, isso sim, continuar a mostrar o que conseguimos fazer.

 

Já teve várias experiências em televisão, nomeadamente, no programa “Fama Show”, da SIC. Como correu esse projeto? É algo que gostaria de fazer, de forma mais permanente, no futuro, ou até mesmo após a conclusão da sua carreira desportiva?
A minha experiência no “Fama Show” foi mesmo muito gira. Estava fora da minha zona de conforto, mas, rapidamente, consegui habituar-me àquela realidade e, na verdade, gostei muito da experiência. Foi pena não ter continuado, pois, neste momento, tenho de dar prioridade ao atletismo; e com as viagens e as competições não é possível continuar nesse projeto. No entanto, ficou o “bichinho” e, quem sabe, talvez depois da minha carreira desportiva possa participar num projeto televisivo. Era algo que, confesso, antes desta experiência não me agradava tanto – tinha alguma vergonha de falar na televisão –, mas, agora, com o hábito de falar em público, com o convívio com os jornalistas, mudei um pouco de opinião e até estou a pensar experimentar algo nessa área. Estou mesmo a ponderar fazer um curso de atriz, após terminar a minha carreira. Quem sabe? Talvez descubra novos talentos…. Espero ter essa oportunidade.

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